domingo, 12 de junho de 2011

Perturbações do Século XIX: Realismo, Naturalismo, Pintura, Courbet e França - Ou Definição de Realismo


Gustave Courbet

O conceito de Realismo na pintura gira em torno de uma percepção da natureza por observação direta, daí a denominação "naturalista", já que se mergulhava nos fenômenos da natureza, o que propiciava quadros paisagísticos com efeitos de decomposição da luz à Delacroix.

Mas, a esse método de entender a nova forma de pintura, associava-se a idéia de que a representação sóbria da realidade seria para "abrir os olhos" para essa mesma realidade, o que a essa expressão artística mais engajada chamou-se realismo.

Embora a preocupação de retratar a natureza também faça parte dos ideais plásticos do romantismo, no século XIX o realismo se propõe a uma nova percepção da 'realidade natural', não mais se preocupando, os artistas, em aperfeiçoar as qualidades ou as características do que retratavam. Nessa época, possuía-se um conhecimento/entendimento completamente diferente da realidade que se transformava cada vez mais velozmente, graças à industrialização crescente.

Assim, os realistas acreditavam que representar a realidade o mais claramente possível, revelando ao mesmo tempo as implicações sociais, era mais atraente do que as fantasias românticas, a vida cotidiana e o trabalho como temas pictóricos foram retomados, como nos quadros de Millet As Respigadeiras

As mudanças sociais, orientadas pelo capitalismo crescente, também propiciam não só a retratação do meio rural como também a do meio industrial a propósito das revoluções marxistas de 1848, num realismo que nem embelezava nem transfigurava. Na pintura, o termo Realismo se deve a Gustave Courbet, quem dizia ser a negação do ideal o aspecto mais importante do Realismo pois assim obtinha-se uma libertação completa do indivíduo e a definição da democracia, só pintando aquilo que  via, primando por um anonimato das personagens transformadas em representantes de uma classe. Courbet fazia da arte um instrumento público, não um artigo de luxo ou um prazer individual.
                 
Em suma, nas artes plásticas, o conceito de Realismo, num sentido amplo, vincula-se a negação da idealização e da adoção de temas tidos convencionalmente belos e se configura como a adoção de temas enfaticamente ligados à vida ou às atividades do homem comum. Especificamente, Realismo traduz um movimento característico do século XIX contrário aos temas mitológicos, históricos e religiosos tradicionais em prol de cenas da vida moderna (contemporânea a eles, realistas). Na década de 50 daquele século, a palavra passou a designar toda a arte que abandonasse a figuração e a representação, assim, chama-se Realista a arte que pinta a coisas exatamente como elas são.

Já o conceito de Realismo na literatura, abraça a Filosofia e, filosoficamente, já no século XIX, realismo significava a crença na realidade em oposição aos rótulos de idéias abstratas. Mas, na França a partir de 1826, literariamente, o termo indica que a literatura do século XIX era a literatura do verdadeiro porque era uma 'imitação' fiel dos originais oferecidos pela natureza. A partir de 1833, realismo designava algo como quase equivalente a materialismo pela minúcia da detalhes nos romances, porém nada de extraordinariamente diferente dos românticos. Na década de 50, depois do choque realista de Courbet, aquela minúcia de 1833 passou para a descrição de costumes contemporâneos em forma de debates entre os românticos e os que se diziam realistas, os quais em revistas, por volta de 1857, defendiam um credo literário realista: a arte deve ser a representação verdadeira do mundo real. 

Courbet
 
Na Inglaterra, a crítica literária do período vitoriano se baseava em critérios realistas da verdade na observação e na descrição de acontecimentos, personagens e cenários. Porém, como as filosofias do século XIX apareciam paralelamente, naturalismo e realismo pareciam a princípio ser uma coisa só, pois que se o realismo deve ser a imitação do verdadeiro e o verdadeiro é o natural das coisas e da natureza, as noções se confundiam. Mas tendo o debate início na França, as distinções foram lá mesmo postas a prova. O Naturalismo, a doutrina de Zola, seria tudo aquilo que propiciasse uma análise científica determinista, de tese, enquanto os realistas eram menos enxutos em suas convicções.

E, ainda com relação à imitação, simplifica Croce dizendo que não há natureza nem realidade fora da mente, o artista não precisa se preocupar com a relação; assim, 'realismo' imita a realidade contemporânea minuciosamente, essa realidade imitada tornar-se-á obsoleta

Assim, para se conceituar realismo deve se levar em consideração os critérios de tipo e objetividade, mas não sem antes acrescentar que, em suma, houve necessidade de se formalizar uma nova maneira de se entender a arte, que era então voltada à realidade, às ciências e ao mundo e que, necessariamente, se opusesse ao romantismo. Mesmo que tal maneira não tivesse nome nem se organizasse de forma esteticamente clara, já se sabia, já que se opunha ao romantismo, que não se queria idealismos, maravilhas, alegorias e, por outro lado, se sabia que a realidade implica inclusão do feio, revoltante, o baixo, o sexo e a morte.

Courbet
                 

Os critérios de tipo e objetividade são incorporados ao Realismo porque talvez eles se organizem de maneira internamente interessante para a definição dele mesmo: o tipo (dos personagens) é a associação com a observação social objetiva e a objetividade é outro argumento do realismo que, como dito, pressupõe a negação do romantismo, conceito temporal anterior; e, como lá na pintura, o social observável é tema estético. 

Portanto, Realismo como conceito de período, como propõe R. WELLECK, o período da segunda metade do século XIX, é, literariamente, o conjunto de obras voltado às mudanças sociais propiciadas pela mecanização/ industrialização, de descrição objetiva e minuciosa de tipos e da realidade que lhes era contemporânea e, como afirmado acima, hoje obsoleta..

Trabalho apresentado originalmente para a disciplina de Realismo Brasileiro na Universidade de Brasília - UnB.
Fernando Medeiros é professor de Literatura.

BIBLIOGRAFIA:
DICIONÁRIO OXFORD DE ARTE. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
KRAUβE, Ana-Carola. História da Pintura: do Renascimento aos nossos dias. Könemann, 2000. (da edição portuguesa Könemann Verlagsgesellschaft)    
WELLECK, R. Conceitos de Crítica. Trad. Oscar Mendes. São Paulo: Cultrix, s/d.

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